Crítica dos discos de 
Sergio Vid

DIVERSÕES
Crítica por Jamari França

Em 2001, Vid lançou o projeto “Diversões” pela gravadora Warner; o prêmio pela vitória na Escalada do Rock que o levou ao Rock In Rio 2 em 1991. Depois de anos de relutância em cumprir o prometido, a gravadora finalmente concordou em fazer o disco e pediu que tivesse algum apelo comercial. “Versões sempre foram extremamente vendáveis no Brasil, sendo carros-chefe de uma infinidade de discos. Daí me ocorreu tentar algo ainda inédito: um disco inteiro só de versões de primeira linha”, conta Vid.

Como grande conhecedor de rock, Vid escolheu 13 canções que mesclavam qualidade com popularidade. Fez as letras e partiu para a batalha de licenciamento dos autores através das respectivas editoras. Enviou os pedidos com explicações detalhadas sobre as letras em português, feitas com o intuito de manter a idéia original sempre que possível.

Foi premiado com muitas aprovações, a mais destacada delas do Beatle George Harrison para “Algo”, versão de seu maior sucesso, “Something”: “O single vendeu 2 milhões de cópias; maior xodó de Harrison; primeiro lado A dele nos Beatles. Foi a última versão liberada no mundo antes de nos deixar órfãos. Soube que outros artistas a pediram também, mas tive a honra de ser agraciado. É a única música destacada pelo produtor George Martin no encarte da coletânea de singles “1”. “Something” é tão famosa que há mais de 200 versões, só a minha em português,” explica Vid.

A produção de 10 das 14 faixas ficou a cargo de Paulo Henrique Duncan, ex-tecladista do Sangue da Cidade e produtor musical da Rede Globo.O então diretor artístico da gravadora Tom Capone dividiu com Vid a produção de Canto Pra Você, versão de “A Song For You”, de Leon Russel. Como faixa bônus, Vid gravou “Metamorfose Ambulante” com o Barão Vermelho, a última gravação da banda antes de entrar em recesso, numa produção dividida entre Roberto Frejat e Vid.

Os arranjos não buscam repetir os originais. Vid recriou as canções dando-lhes uma roupagem de acordo com sua leitura do modo como deviam ser retratadas dentro da nossa brasilidade.

Em 1969, o guitarrista Jimi Hendrix formou com o baterista Buddy Miles e o baixista Billy Cox a Band of Gypsys. A canção “Them Changes” é a mais conhecida deste período da carreira do maior guitarrista de todos os tempos. Para a versão, “Demais”, Vid manteve o riff com wah wah, mas temperado com um contraponto de metais. “Minha mente muda com o vento. Eu acho que vou pirar. Se você me vir noutro momento. Nem vai acreditar,” diz trecho da letra, em cima das mudanças sugeridas no original.

A banda americana Doobie Brothers tem no currículo a canção “Listen To The Music”, com vendagem superior a um milhão de cópias, uma exaltação aos poderes da música sobre nós. Vid a vestiu com uma roupagem dançante marcada pelos sopros. “O que todo mundo quer é só viver feliz. E isso é muito fácil de alcançar. Entre logo nessa música, nem dá pra acreditar. Ouça bem a música pra voar.”

“IF”, sucesso da banda americana Bread, é de 1971, mas ganhou um status atemporal e está sempre presente nas rádios. Vid a manteve como “Se” e acelerou seu andamento num arranjo mais leve com um belo solo de guitarra. “Se um rosto lança mil navios para onde eu vou? Seus mares e seus rios, seu cais me ancorou.”

A ópera rock “Jesus Christ Superstar” foi um musical de projeção internacional de Andrew Webber e Tim Rice. Na versão, Vid manteve a intenção questionadora do original: “Não me entenda mal, só quero saber. Jesus Cristo, quem é você? Qual o sacrifício?…Você quis morrer assim tão sem sossego? Você sabia que sua morte gerou muito emprego?” O arranjo tem roupagem hard rock com sopros fazendo o riff e pontuando a levada num crescendo, até a explosão final em falsetes lancinantes.

“You Are So Beautiful”, grande sucesso de Joe Cocker, rebatizada de “Você É Tudo”, manteve o clima romântico do original com destaque para guitarras e sopros: “Você é tudo pra mim. Meu sonho mais real. Tudo que eu quis.”

A rainha da dance music, Donna Summer, teve muitos sucessos, entre eles “She Works Hard For The Money”, versado por Vid como “Duro Sem Grana”, num momento pop do disco pontuado por uma guitarra distorcida e uma cama de órgão. “Eu ainda era pequeno quando percebi que neste mundo a regra é cada um por si. Tem dinheiro, tem poder, tem situação que necessita manter alguém na escravidão.”

“Long Time Gone”, do trio Crosby, Stills & Nash, abre o filme do festival de Woodstock, de 1969. Uma bela canção em midtempo vertida como “Longo Tempo” e gravado em dueto com Zélia Duncan. “Parece um longo tempo até de manhã. Ande mais uma esquina e ouça bem o que as pessoas pensam. Porque, é claro, tem algo muito estranho aqui que, é certo, não vive à luz do dia.”

“Dream On” é uma power ballad da banda americana Aerosmith, de 1973. A idéia original de se enfrentar a vida e realizar sonhos foi mantida na letra de Vid, bem como o peso de guitarras. “Minha vida está escrita em livros. Aprendi com tolos e peritos. E tem que ser, tudo isso serve pra crescer. Sonhando até acontecer.”

Sopros abrem “Algo” (“Something”) e levam o riff na levada que tem uma bela cama de órgão e um inspirado solo de guitarra. “Algo nesse jeito seu me atrai, me guarda, me mantém. Algo nesse beijo seu. Não quero me afastar, nem dá pra acreditar.”

“Higher Ground” é um funk de Stevie Wonder, 1973. Vid gravou como “Alto Astral”, em versão rock, com andamento mais rápido que o original: “Já estou pronto pro que der e vier. De novo aqui na Terra se de novo eu quiser. Eu sei melhor agora e quanto mais eu puder. Eu vou tentar até chegar no alto astral.”

“Bridge Over Troubled Water” é um hino de Simon & Garfunkel. Paul Simon aprovou a letra de Vid, mesmo ele invertendo o sentido das águas revoltas para um “rio de águas calmas.” O som da natureza abre a canção numa levada conduzida por violão e guitarra em vez de piano como o original. Na segunda parte, ela se transforma numa power ballad com uma guitarra inspirada em “Kashmir”, do Led Zeppelin. “Se tu vais mal e não sorris, a noite chegará, mas estarei aqui. E vou ficar, amanhecer. E sem me dispersar,como um rio de águas calmas eu te levo ao mar.”

Doyle Bramhal II é um guitarrista americano que foi da banda Arc Angels, tocou com Roger Waters e Eric Clapton. “See What Tomorrow Brings” é do disco de estréia dos Angels, de 1992, aqui vertido como “Espere O Dia Nascer”, uma levada blues pesada sobre os altos e baixos da vida. “Tantas coisas pra sentir.Transmutar, retransmitir.Tudo memórias para contar. Espere um pouco mais. Espere o dia nascer.”

“A Song For You” é o sucesso mais conhecido do pianista americano Leon Russell, de longa carreira no rock’n’roll. Sergio Vid fez uma letra que mantém a inspiração original, mas a vestiu com uma roupagem pesada. “Eu sei você me faz quem eu devia ser. Eu fui tão desastrado, rude com você. Mas ninguém é mais presente, você me vê transparente. Somos nós dois e eu canto pra você.”

O Barão Vermelho gravou com Vid o hino de Raul Seixas “Metamorfose Ambulante”, que entrou como faixa bônus. No longo final, Vid fez um longo texto adicional que diz, em parte: “Do que ter aquela desgastada, rota, maltrapilha, indigente, atrasada, primitiva, desprezível opinião.”

LP DA COGUMELO e CD “A Bruxa”
Crítica por Jamari França

Sergio Vid compõe com igual facilidade em inglês e português. Em 1991,mesmo ano em que se apresentou no Rock In Rio 2, a Cogumelo Records o contratou para um disco que devia ter a maioria das faixas em inglês, porque visava ao mercado externo. Sergio então fez versões em inglês para sete de suas canções. Uma delas, “As Scheduled” (“Hora Certa”) entrou na programação da rádio Z Rock, do Texas. Em 1997, este disco foi relançado como “A Bruxa”, pelo selo Sempre Música, com as letras originais em português, mais algumas pinçadas do repertório do Sangue Azul no período 1986 – 1991. Como bônus, “Brilhar A Minha Estrela”, sucesso de Vid como vocalista da banda Sangue da Cidade.

“Sangue Azul” (“Blue Blood” no LP da Cogumelo) é o tema da banda: “Sempre quis ter um tema a exemplo dos Monkees, Iron Butterfly e outros.Um dia o Nera chegou com a música e o primeiro verso. Completei o resto,”explica Vid. Paulo Nera toca as guitarras na maior parte das faixas do disco. As levadas da banda são calcadas em guitarras distorcidas e órgão, ambos solistas. “A noite longa nessa cidade/ É uma vitrine do blues/ Vadio não tem idade na decadência da zona sul/ Me mostre o seu sangue azul,” diz trecho da letra.

“Hora Certa” (“As Scheduled”) é um speed rock composto por Ernesto Rios, guitarrista da primeira formação da banda. Vid conta que resolveu surpreender com uma quebra do padrão desse tipo de rock: “Botei solos de flauta e violino, instrumentos geralmente associados a gêneros mais suaves, por conta de Áurea Regina, eminente jazzista, e o ex-Mutante da fase progressiva Paul Di Castro”.

Vid define Autobiografia como uma “celebração cínica e bem humorada da inconstância do mundo pop.” Numa roupagem musical leve, ele define muito bem o mercado musical: “Eu nasci pra cantar rock’n’roll (…) Eu nasci para ser consumido. Estou aqui para ser diluído, até que outro tome o meu lugar. Estou aqui para ser desgastado. Estou aqui para me queimar. Estou aqui por enquanto, eu não sei até quando, enquanto você me ouvir cantar.” Na era das gravadoras (lembram delas?) a prática era explorar ao máximo os artistas e jogar o bagaço fora, exatamente o que Vid fala na letra.

Em “A Gente Vai Levando”, numa roupagem pesada light, Vid faz uma crítica política ácida que se tornou, infelizmente, atemporal no Brasil: “E a gente vai levando. Levando na cabeça enquanto não é noutro lugar.”
“Rapunzel” foi uma das assinaturas do Sangue Azul, favorita em shows, uma composição do guitarrista da formação original Ernesto Rios. Uma leitura ao estilo de Deep Purple da história da princesa pelos irmãos Grimm.
Ao vivo, “A Bruxa” tinha um toque circense, com o Vid encarnando a personagem, e a presença de um cuspidor de fogo, o Adão, da trupe do Circo Voador. Uma levada nervosa de hard rock para a história de um cara que tem um encontro horripilante com a protagonista da letra. No Rock in Rio II, o cuspidor de fogo contratado foi Jamelão, da Escola Nacional de Circo.

“Erosão” é uma parceria com Marcos Lessa, da banda Bixo da Seda. Vid conta que participou de um réveillon em Porto Alegre com o Bixo e o Marcão sempre cantarolava a música: “Compus a letra sobre um hipotético viciado em drogas.O arranjo é speed psicodélico.” Trecho: “Qualquer dia desses venço esse mal estar constante. Contrapeso e contra senso massacrantes.”

“Cantor De Rock” é autobiográfica. Vid conta seu amor pelo rock em contraste com a vontade dos pais para que seguisse uma carreira “séria”,o que ele acabou fazendo também. Formou-se em Direito, mas nunca endireitou de vez. A levada tem um acento de rock sulista americano e a voz foi gravada em duas tomadas e mixadas uma em cada lado do estéreo.

“Rio de Janeura” fala dos problemas de se viver na cidade que é maravilhosa, mas tem uma outra face: “No noticiário toda cor é vermelha (…) Santa Teresa o bonde não freou. Eu sou do Rio de Janeura. O rock é meu Mandrake pra sobreviver,” canta Vid.

Como o projeto da Música Pauleira Brasileira não saiu em disco, Vid incluiu aqui “Partido Alto”, já citada anteriormente. Do LP da Cogumelo, “As Scheduled”, a versão em inglês para “Hora Certa”. Para fechar o disco, “Brilhar A Minha Estrela” ao vivo, gravada na eliminatória da Escalada do Rock, que levou Vid & Sangue Azul a se apresentar no Rock In Rio 2.

Crítica de Jamari França

Crítica de Arnaldo De Souteiro

Crítica de Sergio Sá Leitão

MPB/Música Pauleira Brasileira
Crítica por Jamari França

Em1986, Vid criou o projeto MPB – Música Pauleira Brasileira: grandes canções da Música Popular Brasileira traduzidas para o estilo de bandas de hard rock. A ponta de lança foi “Partido Alto”, de Chico Buarque de Hollanda, numa leitura ao estilo do grupo australiano AC/DC. O autor permitiu duas modificações: Em vez de “na barriga da miséria, nasci brasileiro” ficou “na barriga da miséria eu nasci roqueiro. Eu sou do Rio de Janeura”. Em vez de “Que é pra ver se alguém me embala ao ronco da cuíca” ficou “quero ver se alguém se amarra ao solo dessa guita.” Esta versão tocou em várias rádios do país e ficou por sete anos seguidos na programação da Rádio Fluminense FM, A Maldita, a mais importante rádio rock dos anos 80.

O hino de Raul Seixas “Como Vovó Já Dizia”, conhecida popularmente como “Quem Não Tem Colírio Usa Óculos Escuros”, ganhou um toque de Van Halen, num riff nervoso com um viés funkeado. Nesta canção, como nas demais, Vid usa sua extensão vocal em agudos lancinantes.

Vid se impôs alguns desafios neste projeto, como gravar o sambão “É!”, de Gonzaguinha, com um toque de Ronnie James Dio, ex-vocalista do Black Sabbath e do Rainbow. E também um dos hinos da esquerda brasileira nos anos de ditadura, “Pra Não Dizer Que Não Falei De Flores”, numa junção um tanto provocativa de Geraldo Vandré com a banda inglesa de heavy metal Judas Priest. Siri com Toddy? Nada disso, Vid soube muito bem fazer a fusão e criar uma nova integridade para as duas canções.

O Clube da Esquina tem o rock entre suas influências mais marcantes. Do álbum mais rock de Milton Nascimento, “Minas”, Vid pinçou “Fé Cega, Faca Amolada”, recriada ao estilo da banda inglesa de hard rock Deep Purple.

Erasmo Carlos foi devidamente re-tratado à la Guns’n’Roses para sua balada “Sou Uma Criança Não Entendo Nada”, e a canção que apresentou Belchior à música brasileira, “Hora do Almoço”, recebeu pinceladas do grupo mod inglês The Who.

Várias dessas faixas podem ser ouvidas no site www.videsangueazul.com.br. O projeto permanece inédito em disco.